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Para Adriana Azevedo
De: Guilherme Azevedo
Era para ser uma noite difícil, talvez de confronto direto, de palavras propositadamente malpostas e pontiagudas. Mas, afortunada e incrivelmente, nada disso sucedera. Houvera, pois sim, o prato mais delicioso que ele sabe preparar, estrogonofe (de frango com palmito), acompanhado de arroz branco, batata frita e espinafre refogado, para desarmar os ânimos. A conversa que nos aproximaria nos reatou de fato, ao fim.
Curiosa é, no entanto, a forma com que pulamos, talvez inconscientemente, para um próximo problema, quando o mais imediato já se acomoda em resolução. Durante a resolução do mais urgente, já acenamos para o próximo, dizendo que já vamos lá, só espere um pouco, tenha paciência.
Naquela noite, ela não falara comigo, fizera bico para os meus gracejos sempre tolos, fora evasiva, evitara a minha presença. Não fizera nada assim que pudesse machucá-la, que justificasse sua invectiva surda contra mim, ao menos me parecia assim. Deve ter os seus motivos, contudo.
A noite avançou e, antes de partir, fui despedir-me. Bati à porta de seu quarto antes de entrar: já estava deitada, virada para a parede. O abajur aceso, à entrada, lançava uma luz suave, tíbia pelo ambiente.
Disse que ia embora, e fiz novos gracejos, perguntando sobre os “bisusus” — como referia-me aos seus possíveis paqueras, repetindo o modo como ela mesma falava sobre eles: “Tem algum novo?” “Não.” “E antigo?” “Não.” Não queria conversa, respeitei e despedi-me. E, quando ia fechar a porta, notei, na lateral de seu armário, colado, que de repente ele estava ali, o pôster que dera a ela como presente de fim de ano.
Fora feito com o auxílio de um colega de trabalho. Trazia um poema escrito por mim, com as vontades mais fundas de conserto do mundo, de minha família e de mim, com a ilustração de um cachorro dormindo preguiçosamente sob o sol. Falava explicitamente dela, do desejo que tenho de vê-la progredir na vida, arrumar um bom emprego e um bom marido.
Tudo então se revelava aos meus olhos, como flash que se aciona sobre escura paisagem, como lua que desponta por detrás de negra nuvem, como refletor que ilumina a um só tempo presente e passado, tornando tudo muito claro e simples. Estava aborrecida antes com ela mesma que comigo; havia entendido o meu desejo para todos e dividido o mesmo sentimento, colocando aquelas palavras logo à entrada de seu quarto, como a primeira coisa que se olha quando se chega. Demonstrava, assim, o seu afeto por mim, compartilhava a vontade de “Nossa Paz”.
Sei que está sentindo-se mal, certamente com o rumo vagaroso que a vida às vezes tem, com a vontade de ter aquele alguém de novo, de ter um novo lar, de ter um filho, como disse um dia para mim — eu gostaria tanto de um sobrinho... —, de ter uma outra vida, de ser um outro alguém.
Temos de encarar as nossas frustrações, os nossos erros bem de frente, mana, atirar-se à vida como se fosse o último prato de comida no mundo. Não há outro remédio, outra saída, a não ser a de retalhar o peito, numa autópsia profunda. Certamente, não é tarde. Nunca será tarde para um outro recomeço, para um novo rumo. Merecemos sempre uma nova chance.
Sugeriria, mana, o que não esconde uma certa tendência minha à onipotência, que os caminhos que venho trilhando, caminhos difíceis, duros, talvez tragam uma compensação quando certos trechos são vencidos, deixados para trás. Serei sempre seu irmão mais velho, e trago comigo essa preocupação de lhe apontar trajetos e, sinceramente, só posso falar e sugerir alguns por que já passei e vi se servem ou não — pelo menos, para mim. Meus caminhos são finitos, infelizmente.
Colei o pôster também num lugar bem visível no meu quarto. Lembra-me de que a paz é coisa que se pode ter nas mãos, e não só quando corro meus dedos tortos sobre sua superfície de papel.
P.S.: Minha irmã mudou-se da casa de meu pai e meu irmão. Arrumou um lugar para ela, para morar sozinha. Está muito feliz. Nossa mãe tomou a iniciativa de ajudá-la, numa reaproximação tão desejada por ambas, apesar de muito negada. Olha que bacana o e-mail de agradecimento da minha irmã, enviado à minha mãe:
“Bom dia,
Lindo dia, não? Já olhou o sol como está grande e luminoso? rs
Muito obrigada pelas coisas, eu adorei tudo, é tudo do jeito q eu gosto, com flores, amarelo, rosa, colorido. A toalha de mesa amarela com flores eu amei! E o edredom é o mais bonito q já tive, lindo com flores e branco... E o melhor sem cheiro de cachorro! Minha casa vai ficar parecendo a casa da Barbie. rs
Tá ficando bem arrumadinha.
Obrigada pela força.”
Fiquei muito contente também.